Editorial

A disseminação do ódio no Brasil

O Brasil tem acompanhado um preocupante aumento nos casos de ódio, intolerância e crimes cibernéticos nos últimos anos, tanto no ambiente virtual quanto na vida real.
O ódio é um sentimento intenso de aversão, hostilidade e repulsa profunda por alguém ou algo, que advém do medo, da raiva, da injustiça ou do preconceito, e leva a pessoa à vontade de evitar, prejudicar ou destruir o objeto odiado, sendo um estado emocional destrutivo que “intoxica” quem sente e se manifesta em ações como violência ou discriminação, muitas vezes vindo de uma visão distorcida do outro.
Ninguém vê o nascer o ódio, mas sabe-se que ele nasce da negação de uma existência diferente ao seu semblante narcisístico diante do espelho.
São inúmeros os casos de ódio no País, manifestado tanto em agressões físicas quanto, com grande intensidade, no ambiente digital, e abrangem racismo, intolerância religiosa, lgbtfobia, misoginia, abuso, automutilação e tortura de animais, intolerância política, entre outros.
Mas, de onde vem tanto ódio? Raízes psicológicas indicam que ele é uma forma de “amor ferido” ou um mecanismo de separação, frequentemente alimentado por preconceitos, conflitos de grupo e manipulação política.
Na década de 1990, o ex-presidente da África do Sul e vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 1993, Nelson Mandela, advertia que o ódio é algo aprendido. “Ninguém nasce odiando outro pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”.
Por meio dos discursos de ódio, as pessoas manifestam-se através de violência física, perseguição e intimidação baseadas em preconceitos de raça, religião, orientação sexual, nacionalidade (xenofobia), gênero, entre outros. Esses discursos que nutrem os crimes de ódio.
O ódio brota dos argumentos e ações de um grupo de convictos em uma única verdade, um único modo de ser e estar no mundo, “determinado” por um “ser superior” ao qual acreditam servir e honrar ao negar a diversidade humana.
O Brasil tem batido recorde em casos explícitos de violência gerados pelo ódio. O número de feminicídios bateu recorde em 2025: foram 1.470 casos de janeiro a dezembro, conforme dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Já os casos de violência contra animais cresceram 1.900% em seis anos e contra LGBT+, uma pessoa foi morta a cada 34 horas no Brasil em 2025. Em relação à vi-lência política, nas eleições de 2024, o país registrou 76 assassinatos, segundo levantamento do Grupo de Investigação Eleitoral da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Giel/Unirio), sendo mais de 40% deles durante o período eleitoral.
O ano de 2026 é eleitoral, faltam mais de oito meses para o pleito, mas o ódio e intolerância política já começam a se manifestar na sociedade. Na última semana, um colaborador da Folha presenciou uma cena lamentável em uma academia de Santo André. Uma das alunas se recusou a guardar seus pertences no armário de número 13, que segundo ela era petista, e ganhou “apoio” de outro aluno, que também disse fazer o mesmo. A intolerância e o ódio por motivação política é uma página na qual já passou do tempo de os brasileiros virarem.
O discurso de ódio incita a violência, agrava tensões e mina esforços de mediação e diálogo. A rápida disseminação do discurso de ódio, nas plataformas digitais, representa uma ameaça direta à paz, à dignidade humana e aos direitos humanos em todo o mundo. A sociedade brasileira continua fracassando na propagação da tolerância e respeito a tudo e todos que pensam, agem ou são avessos aos seus gostos e modo de pensar. Falta compaixão e solidariedade, palavras que eram tão repetidas durante a pandemia de Covid-19, mas que, infelizmente, caíram no esquecimento coletivo.

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