AME Memórias de São Bernardo

A primeira Copa a gente não esquece

Além da canção, a transmissão do jogo final: Brasil 5 e Suécia 2, com selo da RGE

Como esquecer a Copa de Pelé, Garrincha, Didi, Bellini, Djalma Santos e todo um time de jovens simples e extremamente talentosos, sem o marketing que acompanham todos os jogadores das últimas gerações? Voltaram da Suécia, com a Taça Jules Rimet nas mãos. Vitoriosos, conquistaram a nossa primeira estrela na Copa do Mundo.
E eu me lembro – não porque eu acompanhasse futebol ou soubesse o que estava acontecendo, pois, nessa época eu era uma criança. Mas estão vivas em minha memória a alegria de meu pai Angelo Breda, depois de ouvir no rádio a brava conquista pelo nosso “escrete canarinho”. E ele resolveu comemorar com alarde este grande triunfo: foi para a frente de casa, ainda uma rua de terra, sem pavimentação e começou a soltar rojões e bombas – nossa casa era isolada no bairro Assunção, em São Bernardo – não tinha como perturbar vizinhos, mas a mim, aquele barulho incomodou muito.
Ainda mais, quando papai resolver acender bombas e, antes que estourassem, as colocava debaixo de latas de marmelada para que o efeito fosse mais estrondoso! E minhas irmãs adolescentes, Jandira e Neide, entusiasmadas o acompanharam, muito felizes que estavam com a façanha da seleção verde-amarela. Eu fiquei totalmente apavorada e me escondi embaixo da cama. Minha mãe Lídia veio em meu socorro, pedindo que eu saísse lá debaixo, porém como eu ainda ouvia os estampidos me encolhi, mais ainda, para o fundo.
Mamãe decidiu ir até meu pai e pediu que parasse com a barulheira e, o repreendeu alertando do perigo de um acidente comportando-se daquela maneira e, além disso, com as filhas ao seu lado! E que sua atitude estava assustando a outra filha que se abrigou debaixo da cama… A forma que ela falou foi tão decidida e suficiente que ele logo parou com a comemoração, percebendo que seu fanatismo era um grande risco para ele e família. Então, minha mãe foi até o quarto, estendeu a mão para mim e eu pude sair de onde me escondi. Meu pai veio e tentou me dizer o que tudo aquilo significava, no intento de se justificar e pedir perdão.
Como não havia mais bombas fiquei aliviada. Alguns dias depois, papai chegou com motivos mais apropriados para celebrar o êxito do time campeão do mundo. Era um som bem mais suave e gostoso de se ouvir: dois LPs exaltando o sucesso na Copa de 1958!
Ligou a vitrola e colocou o primeiro e, assim, pudemos ouvir “Verde, amarelo, cor de anil são as cores do Brasil…” e, em seguida, o segundo com a canção: “A taça do mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa…”. Deste modo meu pai, através das composições destes vinis, continuou a festejar a grande proeza de nossos jogadores com toda família cantando. Eu as sei de cor e canto até hoje.
Infelizmente, meu pai faleceu antes da brilhante glória de nosso futebol, alcançada na Copa seguinte, a do Chile. Minha mãe conservou os discos com muito afeto e que couberam a mim como herança. Guardo com muito carinho os dois LPs – eles são símbolos do entusiasmo de meu pai torcedor e de uma equipe que venceu o mundo com raça, habilidade e alegria.

Hilda Breda – integrante da AME (Associação dos Amigos da Memória de São Bernardo).

Na capa, fotos dos jogadores e equipe técnica da conquista de 1958 – lançado pela Odeon que teve fábrica em São Bernardo
Verso do disco: breves biografias da seleção brasileira e dos narradores: Geraldo J.de Almeida, Estevam Sangirardi e Waldir Amaral

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