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Aumento do etanol na gasolina: o que muda para os motores dos veículos?

Nova composição do combustível gera dúvidas entre motoristas (Foto: Divulgação)

A partir de 24 de julho, entra em vigor o aumento da proporção de etanol anidro misturado à gasolina comercializada no Brasil. A medida, que integra a política nacional de combustíveis renováveis e busca reduzir a dependência de combustíveis fósseis, tem gerado dúvidas entre motoristas sobre possíveis impactos no desempenho e na durabilidade dos veículos.

Mas afinal, o que muda na prática para quem abastece diariamente? Segundo o Prof. Dr. Jeferson Afonso de Souza, coordenador adjunto dos cursos de Engenharia Mecânica, Engenharia de Controle e Automação e Engenharia Mecatrônica do Centro Universitário Fundação Santo André (FSA), os efeitos dependem principalmente da tecnologia do veículo e das condições de manutenção do motor.

“Os motores comercializados no Brasil já são projetados considerando a presença de etanol na gasolina. Portanto, para a grande maioria dos veículos em circulação, não há motivo para preocupação quanto à utilização do combustível dentro das especificações definidas pelos órgãos reguladores.”

Por que aumentar a quantidade de etanol?

O etanol possui características que contribuem para a redução das emissões de gases de efeito estufa e para o fortalecimento da cadeia produtiva de biocombustíveis no país.

Além disso, o Brasil é um dos líderes mundiais na produção de etanol derivado da cana-de-açúcar, o que torna sua utilização estratégica para a matriz energética nacional. Segundo o especialista, a medida também busca ampliar a participação de combustíveis renováveis na economia brasileira.

O motor perde potência?

Uma das dúvidas mais frequentes dos consumidores está relacionada ao desempenho. O etanol possui maior octanagem que a gasolina, característica que favorece a resistência à detonação dentro do motor. Por outro lado, apresenta menor densidade energética, ou seja, libera menos energia por litro consumido.

Na prática, veículos modernos equipados com sistemas eletrônicos de gerenciamento conseguem ajustar automaticamente a combustão para compensar essas diferenças.

“Nos veículos atuais, especialmente os produzidos nas últimas décadas, os sistemas de injeção eletrônica realizam correções constantes para manter o funcionamento adequado do motor”, diz o professor.

O maior impacto está nos veículos importados, ou ainda em modelos nacionais que consomem apenas gasolina, e nos híbridos sem a tecnologia flex. Para tais casos, mesmo com o percentual anterior de etanol na gasolina, estes veículos foram projetados para operar somente com gasolina, de preferência premium. Para tais casos, não é recomendado o abastecimento com as gasolinas comum e aditivada, somente com gasolina 100% e de alta octanagem, oferecidas no mercado nacional pela Petrobrás, gasolina Podium, e Ipiranga, Octapro.

Haverá aumento no consumo?

Dependendo da tecnologia utilizada pelo veículo, pode ocorrer uma pequena variação no consumo de combustível. Isso acontece porque o etanol contém menos energia por litro quando comparado à gasolina pura.

Entretanto, segundo o professor, os efeitos tendem a ser discretos para a maioria dos automóveis modernos. “Em condições normais de uso, o motorista dificilmente perceberá mudanças significativas no desempenho ou na dirigibilidade do veículo”, afirma Jeferson.

E os veículos mais antigos?

Os cuidados são maiores para automóveis muito antigos ou modelos importados que não foram projetados para operar com elevados percentuais de etanol na gasolina.

Nesses casos, podem surgir problemas relacionados a: componentes de borracha; mangueiras; sistemas de vedação e corrosão em peças metálicas específicas.

Por isso, a recomendação é que proprietários desses veículos consultem o fabricante ou oficinas especializadas.

Benefícios ambientais

Além dos aspectos técnicos, a utilização de maior proporção de etanol pode trazer benefícios ambientais importantes. O biocombustível possui origem renovável e apresenta menor emissão líquida de carbono quando comparado aos combustíveis fósseis.

Segundo o especialista, a transição energética exigirá uma combinação de diferentes tecnologias. “O futuro da mobilidade passa por diversas soluções, incluindo biocombustíveis, eletrificação, hidrogênio e aumento da eficiência energética dos motores”, diz.

A manutenção continua sendo fundamental

Independentemente da composição do combustível, a manutenção preventiva permanece sendo o principal fator para garantir a durabilidade do motor.

Itens como: velas de ignição; filtros; sistema de injeção; combustível de procedência confiável e trocas periódicas de óleo continuam sendo essenciais para o bom funcionamento do veículo.

“Muitas vezes os problemas atribuídos ao combustível estão relacionados, na verdade, à falta de manutenção adequada ou ao abastecimento em postos que não seguem padrões de qualidade”, explica o professor.

Engenharia e inovação para uma mobilidade mais sustentável

Para o Prof. Jeferson, a evolução dos combustíveis faz parte de um processo contínuo de inovação tecnológica. “A Engenharia tem papel fundamental no desenvolvimento de soluções que conciliem desempenho, eficiência energética, sustentabilidade e redução de impactos ambientais. O aumento da participação do etanol é mais um passo dentro dessa trajetória”, avalia.

A expectativa é que os avanços nos sistemas de gerenciamento eletrônico dos motores e nas tecnologias automotivas permitam uma adaptação cada vez mais eficiente às mudanças na composição dos combustíveis.