MARCOS CINTRA Opinião

O ponto fixo da promiscuidade política

A política brasileira alcançou, em 2026, um nível de deterioração ins-titucional que ultrapassa disputas partidárias. Observa se a convergência de atores que, embora representem projetos distintos, orbitam um mesmo núcleo fisiológico – o ponto fixo que denomino Vorcaro. Ele sintetiza um sistema que converte divergências ideológicas em instrumentos de barganha: a política deixa de se organizar por programas e passa a girar em torno de oportunidades de extração.
Eventos recentes expõem esse mecanismo. A relação entre Executivo e Congresso tornou se um campo contínuo de chantagem, refletido em derrotas sucessivas do governo em pautas centrais. A rejeição de indicações ao Supremo, a derrubada de vetos e a paralisia de projetos econômicos revelam um Legislativo mais autônomo e disposto a impor custos elevados para qualquer agenda. Não se trata de independência, mas de captura de prerrogativas por coalizões circunstanciais voltadas a maximizar ganhos imediatos.
Esse padrão atravessa todos os blocos. Partidos que defendem responsabilidade fiscal negociam cargos e emendas em troca de apoio seletivo; legendas de esquerda, direita e centro repetem a prática, variando apenas o discurso. A pauta econômica passa a refletir menos critérios técnicos e mais a intensidade da pressão sobre o orçamento. A liberação acelerada de emendas consolida se como principal moeda de troca, instaurando um regime de compulsão fiscal em que o governo gasta mais para conseguir governar.
O ápice dessa dinâmica surge quando o Legis-lativo impõe derrotas simultâneas, paralisa indicações, amplia exigências orçamentárias e inviabiliza reformas. O Planalto é descrito como “refém” de alianças fluidas. O Executivo tenta recompor maioria ampliando concessões a grupos que se beneficiam da própria fragilidade institucional que ajudam a aprofundar. Forma se um círculo vicioso: instabilidade gera chantagem, que reforça a instabilidade.
O ponto fixo Vorcaro emerge nesse entrelaçamento. Independentemente de quem governe, o sistema converge ao mesmo padrão: grupos antagônicos se alinham para extrair recursos, disputar ministérios e negociar favores. A retórica muda; a prática permanece. Essa convergência elimina diferenças substantivas e estabelece um consenso tácito: a política como apropriação, não condução estratégica do Estado.
As consequências são profundas. A instabilidade reduz a capacidade de planejamento, compromete a credibilidade institucional e transforma o orçamento em arena predatória. Temas centrais – reforma política, transparência fiscal, modernização administrativa – permanecem bloqueados, pois implicam restringir o poder de barganha dos próprios agentes. O país caminha, assim, para um regime paradoxal: hiperatividade congressual com deterioração funcional do Estado.
As derrotas de 2026 não são acidentais, mas expressão de um sistema que encontra estabilidade na promiscuidade. O ponto fixo Vorcaro descreve essa engrenagem: uma política que não avança nem colapsa, sustentada pela troca contínua de favores entre adversários ocasionais. O Brasil permanece preso a esse equilíbrio inferior porque os atores capazes de superá-lo dependem da lógica que o sustenta.