17 Jan 2018

Publicado em Renato Anghinah
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Durante o meu curso de medicina e mais profundamente em minha residência de neurologia tive que estudar um intrigante caso, na época denominado " Caso H.M".
Apesar de interessante e enriquecedor, H.M. para mim não tinha um rosto ou ao menos um nome,e habitava a minha mente no espaço que fica entre o real e o imaginário. Algo que sabemos que existe mas não é  palpável !
Pois bem, hoje sabemos com detalhes quem foi H.M. e sua história. O seu caso ajudou a ciência a entender muitos aspectos sobre o funcionamento da memória.
H.M., chamava-se Henry Molaison era um garoto americano de classe media, nascido em 1926, que aos 7 anos de idade após bater a cabeça, passou a ter crises convulsivas que apesar de todos os esforços na época, não estavam totalmente controladas. Estas crises foram piorando, e prejudicavam muito a qualidade de vida de Henry. Aos 27 anos de idade, seu medico sugeriu a ele um tratamento radical que se iniciava na época, a cirurgia para a epilepsia. Como H.M. tinha crises que se iniciavam nos dois lados do cérebro, no lobo temporal, mais precisamente na região do hipocampo (região que hoje sabemos, está relacionada com a memória e é acometida nas fases iniciais da doença de Alzheimer), a opção era a realização de uma cirurgia que retirasse parte do lobo temporal (hipocampo) dos dois lados do cérebro.
Em 1953 a cirurgia foi realizada. Do ponto de vista da epilepsia foi um estrondoso sucesso, mas o que os medicos não sabiam e que a verdadeira contribuição  de Henry para medicina, começaria exatamente à partir daquele ponto.
O paciente aparentemente ficou normal, falava, andava, comia sozinho, conversava sem problemas. Tudo que ele sabia antes de 11 anos antes da cirurgia mantinha-se preservado e algumas lembranças anteriores há 2 anos da cirurgia também!  No entanto, Henry Molaison seria incapaz de aprender coisas novas, que pudesse lembrar depois. A cada dia, ou após alguns minutos que os medicos ou pessoal de enfermagem entrava no seu quarto era como se nunca tivessem estado ali antes.
Os cumprimentou por anos como se fosse a primeira vez que os estava vendo. O seu caso foi intensamente estudado pela medicina e em especial por uma psicóloga chamada Brenda Milner, que elucidou de forma científica os mecanismos da memória de H.M. Estes conhecimentos são um dos pilares do conhecimento da neuropsicologia atual.
Henry Molaison faleceu aos 82 anos e residia em um lar em Connecticut nos Estados Unidos. Seu cérebro foi doado a universidade da Califórnia em San Diego e um atlas de estudo sobre ele serva à ciência até hoje.
Há relatos que já idoso, Henry se viu acidentalmente em um espelho e assustou-se pois não reconheceu a sua própria imagem, afinal em seu cérebro ele se enxergava como ele era aos 27 anos, parado no ano de 1953.
Última modificação em Segunda, 21 Novembro 2016 12:29
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