Conversas de Memória

Hábitos alimentares do passado

Participantes do encontro de Conversas de Memória

Quando falamos de Memórias, não nos referimos a lembranças estáticas, definitivas, mas a processos construtivos, isto é, memórias que vão sendo construídas e reconstruídas a cada impulso e/ou motivação do presente, envolvendo também os sentidos: visão, audição, olfato, paladar e tato.
Com esses pressupostos, o Centro de Memória, da Secre-taria de Cultura, da Prefeitura de São Bernardo, promoveu mais um encontro de Conversas de Memória, na quarta (27) de maio, buscando, na riqueza das memórias gastronômicas, ele-mentos que contribuem para a construção das memórias de cidade, uma vez que, ao se lembrar de um alimento, vêm também as lembranças de pessoas, espaços, contextos sociais etc.
Tendo em vista que a polenta foi e ainda é um alimento muito presente nas famílias de São Bernardo – influência recebida dos imigrantes italianos – , foi proposto que não se falasse, num primeiro momento, desse prato, mas que a conversa abordasse os hábitos alimentares do passado, que hoje já não são tão comuns: as comidas (doces e salgados) e bebidas que eram comuns no cotidiano das famílias e atualmente são raramente consumidas.
Assim, foram fluindo as lembranças de alimentos comprados em estabelecimentos comerciais, como o pão fresco e leite (de saquinho) da Padaria Brasil, adquiridos e consumidos bem cedo, na madrugada quando se retornava dos bailes. Também dessa padaria, o pão com mortadela e café com leite.
Ainda, o pão doce com leite, da Padaria Royal; o pastel, da Pastelaria ABC; os bolinhos da lanchonete do Xaveco, na Praça Lauro Gomes; o aliche curtido em recipiente de vidro sextavado, sobre o balcão do Bar do Genêsi; os frios, da mercearia localizada onde hoje está a Pizzaria do Gino… Cada lembrança, trazendo imagens de uma cidade mais tranquila, sem toda a agitação atual, com os espaços públicos não sendo só locais de passagem, mas também de permanência e convivência mais alongada.
E o quebra-queixo, vendido por ambulantes nas ruas e praças? O vendedor de biju, com sua inconfundível matraca, quebrando o silêncio, encantando as ruas e o paladar das crianças de outrora…
ambém foram lembradas, com saudades, aquelas comidas e bebidas feitas e consumidas no interior das casas, junto à família, associadas às pessoas, especialmente mães ou avós, que elaboravam as comidas, mesmo as mais simples, de maneira única, nunca mais encontradas: bolinho de chuva, chá de ervas ou cascas de frutas, sopa com sobras de pão, rabanada, brevidade, sagu, manjar, fígado acebolado, patê de fígado, miúdos de porco, linguiça feita em casa, sopa de fubá, panetone caseiro, serralha, almeirão do mato, taioba, crustoli, doces variados (goiaba, laranja, cenoura, chuchu, abóbora, beterraba, leite…), nhoque, capeletti e macarrão caseiros, entre outros mais citados.
Além das comidas, as bebidas: tubaína, grapette, ki-suco, cachaça com cambuci ou uvaia, limonada com uma pitada de bicarbonato, para fazer o efeito efervescente…
Até mesmo nas festas o menu tinha componentes que já não mais estão presentes nes-ses momentos: biriba, bala de coco, bolo confeitado com bo-linhas prateadas (duras…), sanduíches de patê, em pão de forma cortado na forma de triângulo…
Cada alimento lembrado trouxe consigo as lembranças do ambiente de consumo, das pessoas envolvidas, de uma determinada época, de sentimentos e afetos…, recortes de memórias individuais, que fazem parte da construção das várias me-mórias de São Bernardo.

Jorge Magyar