José Renato Nalini Opinião

O finito e a infinitude do mal

Por não reconhecer sua finitude, o ser humano é capaz de causar males infinitos. É o que acontece com a incrível e vergonhosa produção de lixo no planeta. O já saudoso Papa Francisco, o mais ecológico dos Pontífices deste século, já dizia na Encíclica “Laudato Si” que não existe “jogar fora”. Quando pensamos estar a “jogar fora”, na verdade jogamos na superfície da Terra. O único planeta de que dispomos.

Vamos transformando essa esfera num terrível depósito de imundície. Recente reportagem de Jéssica Maes na FSP (16.02.2026) mostra a gravidade e alcance de nossa imprudência. Comprovou-se que resíduos sujos de óleo do petróleo que vazou no Nordeste em 2019, chegou até a Flórida por meio de lixo plástico. Foi uma trajetória de 8.500 quilômetros, por 240 dias, da costa brasileira, passando pelo Caribe e chegando às areias de Palm Beach, no sudoeste da Flórida.

A descoberta se deve a uma equipe de pesquisadores do Instituto de Ciências do Mar da Universidade Federal do Ceará e de instituições internacionais e foi publicada na Revista Científica Environmental Science & Technology. Em 2019, durante vários meses, vazamento de petróleo do navio de bandeira grega Bouboulina atingiu mais de três mil quilômetros do litoral brasileiro. Impactou ecossistemas e causou danos imensos às comunidades costeiras e ao turismo. Foi o pior derramamento de óleo na história do Brasil. Um dos sinais da tragédia: de maio a setembro de 2020, grande quantidade de garrafas de vidro e plástico, sujas de petróleo, chegavam diariamente a Palm Beach. O fenômeno chamou a atenção da ONG Friends of Palm Beach, que atua na limpeza das praias da região.

É prova cabal do efeito multiplicador da contaminação oceânica. Nada se faz em termos de poluição, que se possa circunscrever a um dado território. É o bicho-homem, ser finito – vive algumas décadas, não mais do que isso – a causar males infinitos. Qual o preço dessa contaminação? Como se calcula o malefício que atinge legião de prejudicados e até mesmo aqueles que ainda não nasceram? Quanto tempo vai demorar para a sociedade humana criar juízo?