08 Apr 2020

Publicado em José Renato Nalini
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A República no Brasil não começou bem. Humilhou Pedro II, um estadista e fê-lo sair às pressas, qual fugitivo, da Pátria à qual serviu e amou durante toda a sua vida. Há pouco passou despercebida a data em que faleceu em Paris, residindo no Hotel Bedford, à rue des Arcades, perto da Madeleine. Ali também viria a morar Vila Lobos.
A Europa monárquica rendeu a ele todas as homenagens de Chefe de Estado. A República “dos Estados Unidos do Brasil” não participou desse preito de gratidão. Por sinal que, ingratidão, é uma característica bem brasileira.
Deodoro, ao que consta, não queria ferir o Imperador, a quem servira de perto. Teria sido forçado a proclamar a República? Seu governo foi bastante tumultuado. Menos do que o de Floriano, que o sucedeu. O que veio a consolidar a ideia republicana foi o trio paulista de homens de bem. Prudente de Morais, Campos Salles e, principalmente, Rodrigues Alves. O primeiro serenou os ânimos; o segundo saneou as finanças. O terceiro foi o melhor Presidente que esta República já teve.
Ninguém ainda mostrou o que é fazer uma Revolução em quatro anos, mediante determinação, escolha inteligente e confiança nos escolhidos. Rodrigues Alves sequer conhecia Oswaldo Cruz, médico de trinta anos que já possuía quase trinta trabalhos científicos escritos em francês e que se especializara em França onde era mais conhecido do que em sua Pátria. O que não é novidade.
Pereira Passos foi o Prefeito que derrubou os pardieiros, os cortiços, a tosca falta de planejamento de uma cidade doente. Se o Brasil teve revoluções que merecem estudo nas salas de aula, ou movimentos cruentos como a expulsão dos franceses e dos holandeses, as revoltas de 24, 30 e 32, não é menor o impacto daquilo que Rodrigues Alves, com Pereira Passos, Paulo de Frontin e Lauro Muller fez no urbanismo e Oswaldo Cruz na saúde. O Rio passou a ser a “Cidade Maravilhosa”, como foi chamado por Coelho Neto e não o esquife dos visitantes, a melhor forma de praticar suicídio, como se dizia no Velho Continente.
Nunca mais houve uma presidência que se aproximasse desta. A mais semelhante foi a dos “50 anos em 5”, de Juscelino Kubitschek. Depois, a sucessão de insucessos que todos presenciamos e dos quais somos cúmplices e vítimas simultaneamente. A fidelidade à monarquia foi uma virtude rara, porque o interesse pessoal e mesquinho é o que prevalece na política praticada nesta terra que já foi chamada de Santa Cruz, mas que vai abandonando a cruz para jogá-la aos ombros da população. Que ainda não é cidadania, porque não tem educação levada a sério.
Talvez a melhor definição tenha sido a de Joaquim Nabuco, outro grande brasileiro, ao defen-der o Império assassinado: “Na República não há lugar para os analfabetos, para os pequenos, para os pobres. As oligarquias republicanas, em toda a América, têm mostrado ser um temível impedimento à aparição política e social do povo”.
Como diz Afonso Arinos, em sua insuspeita erudição e lucidez, “palavras proféticas que o futuro, por largo tempo, viria confirmar no Brasil”.

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