MARCOS CINTRA Opinião

A Reforma tributária

A nova edição da pesquisa “Tax do Amanhã 2026”, da Deloitte – uma das mais respeitadas consultorias tributárias do mundo – revela um cenário que exige atenção. O levantamento com 148 grandes empresas brasileiras vai além de ajustes operacionais: indica uma percepção crescente de que a reforma tributária não entregará a prometida neutralidade, seja na carga, seja na formação de preços e na concorrência entre setores.
Três conclusões principais emergem do estudo, todas apontando para uma realidade distinta dos objetivos originais da reforma do consumo.
1.A simplificação perde força
A parcela de empresas que acredita na simplificação caiu de 78% para 67% em um ano. Não é uma oscilação marginal, mas um sinal claro de frustração com o principal argumento da reforma. À medida que avançam as regulamentações e os estudos internos, cresce a percepção de que a transição não será simples.
A convivência entre o sistema atual e o novo modelo (IBS/CBS) entre 2026 e 2032 exigirá mudanças relevantes em sistemas, governança e fluxos de informação. Na prática, isso reduz a expectativa de simplificação ampla e imediata.

  1. A expectativa de aumento de carga se consolida
    O dado mais expressivo é que 51% das empresas preveem aumento da carga tributária. Apenas 16% esperam redução, enquanto 19% acreditam em neutralidade.
    Segundo a Deloitte, o impacto varia conforme fatores como cadeia produtiva, uso de créditos, posição no processo produtivo e localização. Ou seja, não haverá efeito uniforme. Essa heterogeneidade reforça a percepção de que haverá ganhadores e perdedores.
    Além disso, a estimativa de uma alíquota em torno de 28%, ainda que com maior creditamento, alimenta a sensação de pressão sobre preços e margens, mesmo antes de cálculos mais detalhados.
  2. Impactos desiguais enfraquecem
    a ideia de neutralidade
    Mesmo dentro de um mesmo setor, empresas projetam resultados distintos. Diferenças na composição de custos, uso de incentivos, intensidade de mão de obra e localização alteram significativamente os efeitos da reforma.
    Ao contrário, há expectativa de mudanças relevantes nos preços relativos, afetando estratégias de precificação, margens e decisões de investimento.
    Entre empresas que hoje se beneficiam de incentivos, 57% consideram alterar sua cadeia ou localização – um indicativo claro de reorganização do ambiente competitivo.
    Se empresas acreditam em impactos desiguais, agirão como tal – ajustando preços, contratos, cadeias e investimentos. Esse comportamento, por si só, já produz efeitos econômicos concretos, independentemente do desenho teórico da reforma.
    Conclusão
    O levantamento da Deloitte captura a visão de quem opera o sistema tributário e aponta três tendências claras: a simplificação perdeu força, a carga tende a aumentar para muitos e a neutralidade parece cada vez menos crível.
    Esses resultados pressionam o debate público. Se a proposta buscava equilíbrio e convergência, a percepção empresarial sugere um caminho mais complexo, assimétrico e competitivo do que o previsto nos discursos iniciais.