
É recorrente, no mês de comemoração do aniversário de São Bernardo, se destacar fatos e momentos relevantes da história da cidade, que contribuíram com maior peso para a sua formação e configuração atual. Nessa perspectiva, temos: imigração, fábricas de móveis, tecelagens, emancipação, Via Anchieta, indústrias automobilísticas, migração, movimento sindical etc.
Uma das marcas mais significativas da cidade foi a fabricação e comercialização de móveis, tanto que São Bernardo ganhou o título de “Capital do Móvel”. Obviamente, que a fabricação e comercialização de móveis implicava na existência de uma cadeia produtiva, com várias atividades, desde a extração da madeira até o móvel pronto, na loja, para ser adquirido.
Dentre esses vários segmentos, existiam as tapeçarias, que complementavam o trabalho das moveleiras, fazendo os estofamentos e revestimentos para poltronas, banquetas, cadeiras etc.
E foi com esse tema – Tapeceiros (as) e Tapeçarias de São Bernardo – que se realizou na quarta (26) de agosto, mais um encontro de Conversas de Memória, que é promovido mensalmente pelo Centro de Memória, da Secretaria de Cultura, da Prefeitura de São Bernardo.
Para iniciar a conversa, trazendo memórias de vários momentos das tapeçarias na cidade, ninguém melhor do que Giordano Zanon, que atuou na área por mais de 60 anos, tendo começado ainda adolescente, logo nos primeiros tempos de chegada ao Brasil, vindo da Itália.
Começou na Fábrica de colchões de mola Brasil (na Via Anchieta), passou pela Fábrica do Pelosini (na Marechal Deodoro), depois foi trabalhar na Americanflex (em Jacareí), posteriormente na Fábrica de automóveis Simca e, a partir de 1962, abriu sua própria empresa, nos fundos de sua casa. Começou revestindo cadeiras e banquetas para as fábricas de móveis.
A propósito, banqueta estofada era um item de mobiliário presente em muitas casas, equivalente aos puffs atuais.
O trabalho era todo manual: era comum chegar a uma tapeçaria e encontrar o tapeceiro com tachinhas na boca, munido de um martelo com imã, fixando o tecido de revestimento do móvel.
Muitos meninos adolescentes começavam a trabalhar nas tapeçarias, aprendiam o serviço e ficavam por muitos anos na área.
Os demais presentes ao encontro foram lembrando de outras tapeçarias existentes na cidade, que sempre tinham muito serviço, uma vez que era raro as famílias trocarem os móveis, mesmo porque tinham maior durabilidade. Quando necessário, solicitavam os serviços dos tapeceiros para substituição de revestimento, de estofamento etc.
Nos anos 50, Nida Riskallah tinha um comércio de variedades na Marechal Deodoro, ao lado do atual Shopping do Coração, sendo o único estabelecimento comercial da cidade que vendia tecidos para tapeçaria.
Geralmente as tapeçarias não eram grandes empresas, quase sempre familiares, mas também existiam fábricas maiores que tinham seu setor de tapeçaria, como, por exemplo, a Volkswagen e outras fábricas de automóveis.
Ester lembrou da época em trabalhava com cursos profissionalizantes na Prefeitura e o de tapeçaria era muito procurado; porém, havia dificuldade de conseguir instrutor, porque todos t-nham muito trabalho.
Uma lembrança olfativa muito presente: o cheiro dos catálogos/mostruários de tecidos para revestimento. Quando havia necessidade de troca do revestimento, a tapeçaria apresentava um mostruário com retalhos de tecidos, para que o cliente escolhesse o que desejava.
Muitas vezes, o cliente pedia os tecidos velhos retirados, que eram utilizados para a confecção de tapetes. Também retalhos de revestimento e amostras de mostruários antigos eram matéria-prima para a confecção de tapetes.
Esses tapetes, bem como aqueles feitos com fuxicos ou com tirinhas de retalhos, eram encontrados em praticamente todas as casas.
Houve uma época em que até mesmo itens de vestuário, como saias, coletes, calças e também bolsas, eram confeccionados com tecidos de tapeçaria.
Por fim, foram lembradas as obras de tapeçaria (muitas em talagarças) confeccionadas para serem utilizadas como decoração nas residências: revestimento de almofadas, quadros emoldurados etc.
Foi um encontro cheio de cores e estampas, que despertaram lembranças de hábitos e costumes, de relações e amizades, contribuindo significativamente para as memórias da cidade, sempre se construindo e reconstruindo…
Jorge Magyar














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