Editorial

O poder da imagem na política

Em tempos de redes sociais, fotos e vídeos são o principal vetor da comunicação política. A imagem tem o poder de cristalizar narrativas, transmitindo valores de empatia e proximidade em frações de segundo. Uma única foto pode tanto consolidar uma reputação, quanto arruinar uma campanha. Mas será que uma imagem pode determinar o futuro de um país na escolha por determinado candidato?
O mundo das redes sociais produz imagens que podem se tornar constrangedoras e arrasadoras quando caem nas mãos de militantes que usam, sem preocupação, a foto como “prova” da ligação do político A ou B com a milícia, com o crime organizado, ou com um ex-banqueiro investigado sob a suspeita de liderar uma organização criminosa contra o Sistema Financeiro Nacional.
O uso de imagens faz parte do jogo eleitoral, mas muitos brasileiros não raciocinam mais e agem como torcedores fanáticos por políticos A ou B. Imagens de Luiz Inácio Lula da Silva em encontro, em 2022, com a advogada Deolane Bezerra, que foi presa, na semana passada, durante a Operação Vérnix, que investiga um suposto esquema de lavagem de dinheiro relacionado ao Primeiro Comando da Capital (PCC), ressuscitaram nos últimos dias.
Na ocasião, em 2022, Lula, que não era presidente da República, foi filmado abraçando a advogada, que, toda sorridente, vestia um tailleur vermelho e fazia o L. O uso dessa imagem faz parte do jogo eleitoral, mas é parte da estratégia ou do “troco” para tirar o foco do maior escândalo financeiro da história do País. De imediato, a foto foi compartilhada e reproduzida à exaustão por militantes bolsonaristas.
Mas, militantes do outro lado, não deixaram barato. Também ressuscitaram fotos, vídeos em que o empresário Rodrigo Inácio de Lima Oliveira, dono da produtora de funk GR6 e miliciano no Rio, que foi preso, em abril último, apareceu ao lado do governador Tarcísio de Freitas.
Também foram vazadas mensagens que revelaram trocas de intimidades entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Nos diálogos, o senador chama o banqueiro de “irmão”, “irmãozão” e afirma: “estou e estarei contigo sempre”. As conversas vieram a público em meio a investigações envolvendo o Banco Master e gerando grande repercussão política. O desgaste gerou queda, de até cinco pontos percentuais, nas pesquisas de intenções de voto.
Em busca de reverter o jogo e o rombo causado pelo efeito Vorcaro em sua pré-campanha, Flávio viajou para os Estados Unidos, onde empenhou-se em conseguir uma foto ao lado do presidente dos EUA, Donald Trump, para provar que tem força o bastante para ter acesso à Casa Branca, que acabou virando uma espécie de Meca para alguns fanáticos ou lunáticos do mundo todo.
Pouco importa a duração do encontro, o que foi discutido, o que vale é a imagem: uma foto ao lado de Trump, que pode alavancar sua candidatura. A foto também foi compartilhada à exaustão nas redes sociais. Nestas horas, nem mesmo os mais aguerridos patriotas se questionaram sobre a possível subserviência a Trump, nem a Nação a serviço do trumpismo. Coisas essas, que deveriam horrorizar qualquer brasileiro, mas que passam despercebidas.
Afinal, o que importa, para políticos do lado A ou B, é a imagem e o discurso estratégico que se constrói a partir de fotos ou vídeos. O objetivo é um só: vencer nas urnas e perpetuar o projeto de poder, nem que para isso, seja preciso manobrar, induzir ou ludibriar os brasileiros, fomentando, claro, bastante ódio entre a direita e a esquerda. Lamentável que o ceguismo fanático tenha tomado conta do País.

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